sábado, 8 de maio de 2010

Os cantos das CEBs: suas expressões da realidade e visões de mundo- Luiz Paulo Jesus de Oliveira




Os cantos e as músicas das Comunidades Eclesiais de Base demonstram com bastante clareza como um grupo social constrói através dos seus cantos, ritmos, balanços, palmas, gingados e conteúdos, uma mensagem religiosa que modela uma concepção de vida, de Deus e do mundo. Os cantos e as músicas têm sido a “orquestra” dinamizadora  da dimensão simbólica das Comunidades Eclesiais de Base.
Em 1992, pela primeira vez escutei um canto tipicamente de CEBs, tratava-se de um Encontrão de Juventude da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Riachão do Jacuípe/Ba, a 172 Km de Salvador, no sertão da Bahia. Era um dia de domingo, era tempo de quaresma, aos poucos chegavam jovens de todas paragens do município e consigo traziam faixas com dizeres de ordem, pandeiros, violas, bandeiras, batiam palmas, dançavam  e cantavam em ritmo de baião:


Somos gente nova, vivendo a união,
somos povo-semente de uma nova nação,
Somos gente nova vivendo o amor,
 somos comunidade povo do Senhor.

 Vou convidar meus irmãos trabalhadores,
operários, lavradores, biscateiros e outros mais,
e juntos vamos celebrar a confiança,
nossa luta na esperança, de ter terra, pão e paz, ê, ê.

 Vou convidar os índios que ainda existem,
As tribos que ainda insistem no direito de viver,
E juntos vamos, reunidos na memória,
Celebrar uma vitória, que vai ter que acontecer, ê, ê.

Convido os negros, irmãos no sangue e na sina,
Seu gingado nos ensina, a dança da redenção.
De braços dados, no terreiro da irmandade,
Vamos sambar de verdade, enquanto chega a razão, ê, ê.

Vou convidar a Oneide, Rosa, Ana Maria,
A mulher que noite e dia, luta e faz nascer o amor.
E reunidos no altar da liberdade,
Vamos cantar de verdade, vamos pisar sobre a dor, ê, ê.

Vou convidar a criançada e a juventude,
Tocadores nos ajudem, vamos cantar por aí.
O nosso canto vai encher todo o país,
Velho vai dançar feliz, quem chorou vai ter que rir, ê, ê.

Desempregados, pescadores, desprezados
E os marginalizados venham todos se juntar,
À nossa marcha pra nova sociedade,
Quem nos ama de verdade, pode vir tem um lugar, ê, ê 
                                                                (Zé Vicente)

Este é um dos cantos mais popular das CEBs, fala de  uma grande comunidade composta por trabalhadores, biscateiros, pescadores, índios, negros, desempregados que partilham juntos a utopia de uma nova sociedade onde todos podem “sambar de verdade...”, “cantar de verdade...”, “dançar feliz”..., “celebrar a confiança”...; “celebrar uma vitória”; mas que só pode se concretizar justamente porque se constitui uma comunidade de gente nova, povo do Senhor. Outro elemento importante presente no canto, é  a comunidade compreendida como o lugar da alegria, da vitória que pisa sobre a dor, da auto-estima e da construção da alteridade e de um sentimento de pertença a uma família do Senhor, ou seja, o povo de Deus. Além disso, traz a tona a noção de comunidade como a categoria de mediação com o sagrado.
Os militantes das CEBs em grande maioria interpretam o engajamento na luta política, social de transformação da sociedade contra a opressão, como uma vocação, um chamado de Deus, e nesta vocação tem encontrado o sentido de sua existência, a doação pelos mais pobres como o gesto de solidariedade  e de amor ao próximo. Por vezes surge a noção de um Deus que convoca os seus filhos a agir no mundo e transformá-lo,  creio que o próximo canto sintetiza bem esta noção: 

Deus chama a gente pra um momento novo,
De caminhar junto com seu povo,
É hora de transformar, o que não dá mais.
Sozinho, isolado, ninguém é capaz!

Por isso vem! Entra na roda com a gente
Também você é muito importante! Vem!

Não é possível crer que tudo é fácil,
Há muito força que produz a morte,
Gerando dor, tristeza e desolação,
É necessário unir o cordão!

A força que hoje faz brotar a vida,
Atua em nós pela sua graça.
É Deus que nos convida pra trabalhar
O amor repartir e a força juntar!”
                                               (Zé vicente)


O canto utiliza a roda como símbolo de integração da comunidade que atende ao apelo de Deus, cuja participação de todos é importante e necessária para construir o cordão contra as forças que produzem o mal. Nas celebrações, nos cultos, nos encontros das CEBs, geralmente se começa com todos os participantes entoando o canto, e quando chega no refrão: por isso vem...,é feita uma grande roda pelos participantes (de mãos dadas) e de forma descontraída e alegre todos repetem o refrão, e assim continua sucessivamente o canto. A utilização da roda como elemento de interação do canto e das atividades desenvolvidas (celebrações...) constitui-se como um elemento de afirmação essencial do senso de comunidade, são gestos que podem parecer banais, mas que dispõem de uma eficácia simbólica surpreendente. Sobre a eficácia da roda como a afirmação do senso de comunidade, gostaria de exemplificar um episódio que ocorrera certa vez nas minhas andanças pelas Comunidades Eclesiais de Base: fui fazer uma palestra sobre o papel do leigo na Igreja e na sociedade numa comunidade rural, começamos o encontro entoando este canto; no momento em que era pra fazer a “grande roda”, algumas pessoas que estavam presentes não queriam participar da roda, bem, o canto só parou quando estas pessoas decidiram entra na roda.; os outros participantes argumentam de que Deus não chamava apenas alguns para participar do “momento novo”, mas a todos. Este exemplo me chamou muito à atenção, pois, demonstra como às vezes o senso de comunidade é construído pelo aspecto “coercitivo” do grupo social que compõem a comunidade, ou seja, em uma mesma comunidade eclesial de base ainda convivem o tradicional e o moderno da religiosidade popular católica.
As visões de mundo das CEBs vêm da fonte sagrada, a bíblia. Seus temas prediletos para compreender a realidade social em que vivem são os seguintes: o Reino de Deus, o mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo e o Êxodo. Além disso, centram-se no discurso programático de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-21), o qual expressa a verdadeira vocação profética de Jesus Cristo segundo a interpretação dos militantes das CEBs. Outros temas bíblicos caros às CEBs são os do Magnificat, do Apocalipse, das Bem-aventuranças, lidos na versão de Lucas, são caros porque são temas que podem abrir uma perspectiva
para evangelização dos ricos. As CEBs têm uma característica muito peculiar que lhe diferencia enquanto movimento popular católico, qual seja: a bíblia está nas “mãos do povo”, os participantes podem ter acesso ao livro sagrado e interpretá-lo tomando como referência a sua realidade; embora no catolicismo tradicional os fiéis tenham acesso à bíblia os relatos bíblicos são transmitidos por meio da cultura oral que vai passando de geração em geração e novos mitos são criados, reinventados. Diz o refrão: “A palavra de Deus já chegou! Nova luz clareou para o povo, quando a bíblia sagrada se abriu, todo pobre já viu mundo novo!”. As  CEBs como espaço educativo, em que todos podem opinar e dizer o que acham dos textos bíblicos e assim que possam compreender os problemas sociais que vivem, faz com que este espaço seja democrático.
Em muitas dioceses e paróquias, aonde existem conflitos de terra entre posseiros, grileiros, índios e latifundiários, as CEBs buscam legitimar a sua atuação, na morte e ressurreição de Cristo para enfrentar os latifundiários símbolos da opressão, para organizar os sindicatos dos trabalhadores rurais; bem como para atuar na realidade dos operários e trabalhadores urbanos. Vejamos como esta dimensão se apresenta no canto seguinte:

Igreja é povo que se organiza,
gente oprimida buscando
a libertação em Jesus Cristo
a ressurreição.

O operário lutando pelo direito
de reaver a direção do sindicato; 
o pescador vendo a morte de seus rios,
já se levanta contra esse desacato.

O seringueiro com sua faca de seringa
se libertando das garras do patrão; 
a lavadeira, mulher forte e destemida,
lava a sujeira da injustiça e opressão.

Posseiro unido que fica na sua terra
e desafia a força do invasor, 
índio poeta que pega a sua viola 
e canta a vida, a saudade e a dor.
                        e canta a vida, a saudade e a dor.

 É gente humilde, é gente pobre,
  mas é forte dizendo a Cristo:
  meu irmão muito obrigado pelo caminho
  que você nos indicou pra um povo feliz e libertado.
                                                                           (Zé vicente)

De forma geral o canto retrata a década de 80, momento histórico de intensas mobilizações dos movimentos sociais e sindicais, nos quais os agentes de CEBs estavam plenamente engajados; fala da dimensão secular da ação dos leigos cristãos e principalmente da fonte de inspiração: a libertação em Jesus Cristo Ressuscitado. É o momento que a “Igreja dos Pobres” mais insiste na formação dos agentes leigos para atuarem no mundo secular. Trata-se de um Cristo encarnado nos sofrimento dos pobres, aliás, o evangelho encarnado na vida dos pobres, é outra dimensão bastante utilizada pelas CEBs .
Os cantos de Romarias nos revelaram dados interessantes sobre as CEBs, eles apresentam um dialogo do povo peregrino com Deus, na medida em que se constituem como um povo a caminho da terra prometida, herdeiros de Moisés. A terra tem um sentido bíblico, sendo a gênese da luta pela posse da terra.

Bendita e louvada  seja
esta Santa Romaria!
Bendito o povo que marcha,
bendito o povo que marcha,
tendo Cristo como guia.

Sou, sou, teu Senhor,
Sou povo unido, retirante, lutador.
Deus dos peregrinos, dos pequeninos,
Jesus Cristo Redentor!
  
No Egito, antigamente, do meio da escravidão
Deus libertou o seu povo, hoje ele passa de novo, gritando a libertação.


Para a Terra Prometida, o povo de Deus marchou,
Moisés andava na frente, hoje Moisés é a gente, quando enfrenta o opressor.

Caminheiro na estrada, muita cerca prende o chão,
Todo arame e porteira merece corte e fogueira, são furtos da maldição!

Quem é fraco, Deus dá força, quem tem medo sofre mais
Quem se une ao companheiro vence todo cativeiro, é feliz e tem a paz!

Mãos ao alto, voz unida, nosso canto se ouvirá,
Nos caminhos do sertão, clamando por terra e pão, ninguém mais nos calará.
                                                                                              (Zé vicente)

O símbolo como nos lembra Durkheim cria sentimentos coletivos e dá sustentação a vida social. A religião serve para gerar solidariedade e vínculos sociais fortes, cujos símbolos são fundamentais. As CEBs se consideram sucessoras de Moisés rumo à terra prometida, “Moisés é a gente” que enfrenta o opressor, mas quem é o opressor? Diferentemente das religiões pentecostais  o mal não é diabo, a grande maldição é o sistema capitalista, são os latifundiários, é patrão que pisa no “peão”. As CEBs entendem que continua nos dia de hoje a marcha do povo de Deus para libertação, assim como, Moisés libertou o povo da Escravidão do Egito. São estes relatos bíblicos que estão orientando a ação dos militantes das CEBs ligados a CPT (Comissão Pastoral da Terra) e do próprio MST, que tem objetivos políticos bem claros, realizar a Reforma Agrária no Brasil.

O símbolo “do povo que marcha rumo a terra prometida” reforça a coesão social da comunidade em torno dos seus objetivos,  bem como os gestos presentes nas romarias. As Romarias da Terra que acontecem em vários locais do Brasil todos os anos por exemplo, é comum que os participantes andem em fila com seus instrumentos de trabalho (enxadas...) e que na frente seja carregada



geralmente uma grande cruz, cruz que representa o martírio de Jesus. Além disso são levados cartazes com fotografias e os nomes dos chamados Mártires da Terra”,  padres, bispos, leigos  que morreram na luta em defesa dos pobres e da posse da terra.

Um outro aspecto das CEBs que pode também ser observado em seus cantos, é a resignificação dos ritos formais das celebrações eucarísticas da Igreja Católica, principalmente no que se refere a comunhão.  Além de acreditarem que estão comungando o corpo e sangue de Cristo, as CEBs buscam na comunhão a força para continuar persistindo na luta em prol do “reino de Deus na terra” e selam um compromisso profético de ação no mundo.

Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão,
se  fecharem os poucos caminhos, mil trilhas nascerão...

Muito tempo não dura a verdade nestas margens estreitas demais,
Deus criou o infinito pra vida sempre mais...
É Jesus este pão de igualdade, viemos pra comungar
com a luta sofrida do povo quer ter voz, ter vez, lugar.
Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar,
com a fé e a união nossos passos um dia vão chegar.

O Espírito é vento incessante, que nada há de prender,
ele sopra até no absurdo, que a gente não quer ver...

No banquete da festa de uns poucos, só ricos se sentou.
nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou.

O poder tem raízes na areia, o tempo faz cair,
a união  é a rocha que o povo usou pra construir


Toda luta verá o seu dia, nascer da escuridão,
ensaiamos a festa e a alegria fazendo comunhão...
                                                        
 
O sofrimento do Cristo é atualizado no sofrimento do povo que vive na exclusão social pelas Comunidades Eclesiais de Base. Os cantos das CEBs é um “grito forte” de indignação contra a situação de miséria em que os pobres vivem. É com “o espírito incessante”, é com “o Deus que senta no banquete dos pobres”, é “com a e a união” que se conquistará um dia a libertação. No entanto, enquanto não chega este “dia” as CEBs encontram na comunhão o único lugar simbólico e real que pode se experimentar a utopia de uma nova sociedade, de justiça e igualdade. Neste sentido, quero chamar atenção para importância que o ritual têm no conjunto das práticas  religiosas das CEBs, a comunhão torna-se um momento de efervescência coletiva, é o espaço por excelência em que os sujeitos podem experimentar de forma individual a presença do sagrado em si mesmo e coletivamente como uma comunidade de membros do próprio Cristo.
Em certos momentos de tensão e conflito nas Comunidades Eclesiais de Base, a agressão física ou moral a um membro da comunidade é motivo de muita revolta, e quando a agressão é  feita à pessoa do sacerdote (padre) por exemplo, toda a comunidade se ofende. Neste caso, o que está em jogo é a própria instituição Igreja Católica. alguns anos ocorreu um fato desta natureza numa cidade do interior da Bahia o padre da cidade seguidor da Teologia da Libertação, estava trabalhando com bastante ênfase na formação das Comunidades Eclesiais de Base na sua paróquia, e dentro os trabalhos de formação, a conscientização política dos fiéis e a fiscalização dos poderes públicos como forma de reivindicar os direitos do povo eram o centro da formação. No entanto, a “elite política” da cidade que estava no poder “contra-atacou” veementemente contra o padre, acusando-lhe de “padre comunista”, “ministro do demônio”, “pregador da discórdia entre cristãos” e lançaram um forte campanha contra a igreja através da rádio local ligada as elites políticas da cidade; ameaçaram de morte ao padre e processaram-lhe por calúnia e difamação. Aliado a isto, aconteceu que no dia da festa da padroeira, quando a procissão com a imagem da santa passava pelas ruas da cidade apareceu um cachorro vestido com uma camisa vermelha em que continha o nome do padre. Este fato escandalizouassava pelas ruas da cidade apareceu um cachorro vestido com uma camisa vermelha em que continha o nome do padre. Este fato escandalizou a comunidade e repercutiu pelas paróquias vizinhas, em toda diocese, e fortaleceu extraordinariamente a comunidade católica local, que “caminha na linha das CEBs”.
A história não acaba por , a comunidade local articulada com as CEBs das paróquias da região prepararam uma celebração de solidariedade ao padre e a comunidade pela situação que estavam vivendo. A Celebração contou com a presença de centenas de pessoas entre elas agentes das CEBs, padres, feiras, seminaristas e com o bispo da diocese. Várias moções de apoio de sindicatos, de partidos políticos foram lidas etc. Mas, houve um momento da celebração que considero ter sido  o mais importante e que emocionou de forma generalizada aos que participavam daquele acontecimento, foi justamente quando todos cantaram  a oração do pai-nosso, que dizia o seguinte:

Pai Nosso, dos pobres marginalizados!
Pai Nosso, dos mártires, dos torturados!

Teu nome é santificado naqueles que morrem defendendo a vida.
Teu nome é glorificado quando a justiça é a nossa medida.
Teu reino é de liberdade, de fraternidade, paz e comunhão.
Maldita toda violência que devora a vida pela opressão.
Ô, ô, ô, ô ...

Queremos fazer tua vontade, és o verdadeiro Deus Libertador.
Não vamos seguir as doutrinas corrompidas pelo poder opressor.
Pedimos-te o pão da vida, o pão da segurança, o pão das multidões,
O pão que traz humanidade, que constrói o homem em vez de canhões.
Ô, ô, ô, ô ...

Perdoa-nos quando por medo, ficamos calados diante da morte.
Perdoa, e destrói o reino, em que a corrupção é a lei mais forte.
Protege-se nos da crueldade, do esquadrão da morte, dos prevalecidos.
Pai nosso revolucionário, parceiros dos pobres, Deus dos oprimidos.
ô,ô, ô, ô....



O canto foi acompanhado com instrumentos afro, e o sentimento que tentava expressar era de solidariedade combinado com o de martírio, várias pessoas da comunidade choraram inclusive o padre, no final da celebração ele fez um pronunciamento agradecendo a solidariedade de todos e terminou dizendo a seguinte frase: “aqueles que pensam com seu canto de “coam“irão me intimidar estão muito enganados. Se pregar a justiça e a verdade for crime, eu sou criminoso! A escolha de um canto que continha uma mensagem religiosa que falava do próprio momento do ritual, o “Pai Nosso dos Mártires” como é conhecido, deu ajuste ao performance do ritual de homenagem ao padre e a comunidade que estavam em conflito com a elite política local.
Na trajetória das CEBs, os cantos que acima descrevemos e analisamos, tratam de uma religiosidade pautada no coletivo, na comunidade como nos referimos anteriormente. E no que se refere ao contexto em que são criados é basicamente a década de 80. Na década de 90 surgem cantos novos dos artistas que acompanham as CEBs que também estão preocupados com a dimensão espiritual que parece ter ficado ofuscada em meio ao discurso político dos agentes das CEBs. E neste sentido, as músicas falam mais sobre  mística  e  retomam  elementos do  catolicismo popular:


Olha a glória de Deus brilhando, Aleluia!

Nosso Deus é o artista do universo
é a fonte da luz ,do ar, da cor
é o som é a música é a dança,
é o mar jangadeiro e pescador,
é o seio materno sempre fértil,
é beleza é pureza e é calor

Aleluia! Aleluia! Vamos criar
que é pra glória de Deus brilhar!

Nosso Deus é caminho e caminhada
De seu povo para libertação
Onde quer que esteja um oprimido
É Javé que promove a redenção.
Ele quebra a força de tirano
E garante a vitória da união!
Aleluia! aleluia! Vamos lutar
que é p'ra glória de Deus brilhar.

Nosso Deus é a voz que se levanta,
é o canto o gemido e o clamor,
é o braço erguido para a luta,
é o abraço em nome do amor,
é o conquistando novo espaço,
é terra é o fruto é a flor!
Aleluia! Aleluia! Vamos amar
que é pra glória de Deus brilhar!

Nosso Deus está brilhando noite e dia,
pelos campos e praças do país,
é presença na voz da meninada,
que convoca um futuro mais feliz,
é a infinita razão de plena vida,
todo o povo cantando hoje bendiz!
Aleluia! Aleluia! Vamos cantar
que é pra glória de Deus Brilhar!

Este canto, Olha a glória de Deus brilhando”, é bastante animado, é cantado em ritmo de samba misturado com estilo afro e em certas ocasiões é acompanhado de coreografias que trabalham os detalhes da música (é o artista do universo, é a voz que se levanta, está brilhando noite e dia). O ritmo e conteúdo 

do canto falavam de um Deus que é estritamente alegre e que está presente em todas as esferas da vida humana e na própria natureza. Em certas missas este glória é incorporado à liturgia formal das celebrações, e, às vezes pelas comunidades em que tive oportunidade de escutar, pareceria acontecer um verdadeiro carnaval , uma verdadeira frenesi. É um canto que tem muita proximidade com “as festas de reisado” que tantas vezes pude presenciar no interior da Bahia; bem como com o ritmo das músicas do candomblé.
O próximo canto expressa de forma mais clara como o catolicismo popular ainda está presente nesta nova forma de religiosidade, que é as CEBs. Este canto retoma jaculatórias de um bendito cantado por rezadeiras e irmandades, vejamos:

Nas horas de Deus, amémPai, Filho, Espírito Santo
Luz de Deus em todo canto, nas horas de Deus, amém!

Nas horas de Deus, amém! Que o bem nos favoreça
Que o mal não aconteça, nas horas de Deus, amém!

Nas horas de Deus, amém! Que o coração do meu povo
De amor se torne novo, nas horas de Deus, amém!

Nas horas de Deus, amém! Que a colheita seja boa
Que ninguém mais vague a toa, nas horas de Deus, amém!

Nas horas de Deus, amém! Deus abençoe os artistas
As crianças  e as catequistas, nas horas de Deus, amém!
  
No processo de enriquecimento da religiosidade das CEBs, a presença um  Deus despersonalizado surge de forma ainda tímida. Contemplo através deste bendito a mãe, a avô e as tias que tantas vezes ouvi exclamando esta jaculatória a nos oferecem comida, a nos darem banho... Nas horas de Deus da Virgem Maria, amém, que isto não te faça mal mas faço um grande bem!, declara o autor do canto. Trata-se de um processo que através dos cantos tenta conciliar a boa convivência entre o tradicional e o moderno.




Por outro lado, um processo nas CEBs que também tenta conciliar várias faces do moderno, ou seja, o moderno que retrata a luta contra a opressão, a luta por justiça, por terra; e a outra face que tenta abordar o contato direto das pessoas com o sagrado, de forma mais mística. O conteúdo da mensagem religiosa do próximo canto demonstra bem isso:

se um dia toda dor doer mais forte
se eu perder os rumos do meu caminhar
se a vida for tão dura com os sonhos de amar
mesmo assim, não esquecerei de ti, jesus
se o sol se pôr mais cedo que o costume
e a noite encher de sombras o meu olhar
se a relva não for verde o bastante pra deitar
mesmo assim, eu quero te amar jesus

mesmo que disserem: veja o amor não vale mais
contra toda esperança o caminho és tu jesus
não me esqueço um segundo, do amor que me dás
Contra Toda A Mentira, Tua Verdade É Minha Luz, Minha Luz

Se A Utopia Nunca Se Concretizar
Se A Luta Começada For Em Vão
Se Os Sonhos Se Perderem Como Mera Ilusão
Mesmo Assim, Eu Acredito Em Ti, Jesus
Se O Silêncio Não Trouxer Uma Canção
Se Meu Conto Não Fizer Um Mundo Irmão

 
Se As Mesas Não Se Encherem De Uva, Trigo, Vinho E Pão
Mesmo Assim, Eu Te Seguirei, Jesus.

Este canto nos leva a pensar o seguinte: parece que nem tudo na caminhada das Cebs está perdido, mesmo que a utopia de uma nova sociedade onde todos possam ser iguais e irmãos, não se concretize, a saída ainda é acreditar em Jesus. Neste sentido, a relação com o sagrado é permeada por um sentimento de amor que ganha sentido na experiência pessoal de cada um com a esfera extra-mundana; a luz que orienta a ação do cristão neste sentido pode ser vivida de forma que o coletivo não necessariamente seja o único caminho para o contato com o divino. Podemos levantar a hipótese que neste canto, a relação com o divino pode ser vivida de maneira que a pessoa não precise ser membro da Igreja Católica, mas que simplesmente acredite na luz, no amor de Jesus., mas é uma hipótese que precisa ser analisada através de estudos mais profundos, o que não é possível ser feito neste texto.
O “passeio” pelos cantos das CEBs está chegando ao final. Por último gostaria de apresentar um canto, cujo conteúdo fala da religiosidade das CEBs de forma bastante genérica, de sonhos, de esperanças de construir um mundo irmão, sendo o otimismo da vida, a razão de ser das CEBs:

Eu quero acreditar na vida, ver o sol em cada amanhecer.
Ter no rosto um sorriso amigo, acreditar que o sonho é pra valer.

Eu quero ter meu peito aberto , caminhar e não olhar pra trás.
Caminheiro quero amor por perto, quero o mundo construindo paz.

Canta comigo, cante esta canção pois contigo sonharemos juntos
pra fazer um mundo mais irmão, canta comigo cante esta canção
pois contigo sonharemos juntos, pra fazer um mundo mais irmão.

Eu quero acreditar no amor, ver a noite se afastar de mim.
          Em cada rua plantar uma flor e fazer da terra um jardim.





Venha junto sonhar o desejo de que a vida não tenha mais fim.
No violão soe o arpejo, construindo a paz, o amor, enfim.
                                                                       ( Martins)

A dimensão da mística empreende em acreditar e ter   na vida e no amor, na busca por um mundo harmonioso e irmão. Parece que as CEBs estão em busca da paz em que as pessoas precisam viver uma experiência do divino, que seja holística, completa do social, da política e acima de tudo do espiritual.

Considerações Finais

As Comunidades Eclesiais de Base compreendida a partir dos cantos que integram as práticas religiosas deste movimento popular católico, demonstram que as visões de mundo que orientam a ação dos sujeitos têm sua fonte central nos temas bíblicos e que se concretizam numa postura de negação e de transformação do mundo. Mas, ao mesmo tempo o resgate da religiosidade popular vem surgindo no seio das CEBs, fortalecendo a mística da busca do sagrado.
Os cantos também além de expressar a realidade social das camadas populares que participam das CEBs, apresentam uma dimensão educativa e pedagógica da comunidade que são bem internalizadas através das reuniões, dos mutirões, dos cultos e das romarias.
 A mensagem religiosa expressa nos cantos das CEBs são essenciais para afirmação do senso de comunidade como caminho de ligação com o sagrado, bem como, como espaço coletivo em que se pode viabilizar a transformação social de exclusão em que vivem a maioria das pessoas que participam das Comunidades Eclesiais de Base.
Por fim , considero que os cantos são expressões de uma encarnada na vida que não separa a vivência da da ação no mundo, e acima de tudo é uma forma de protesto descontraído contra a desigualdade, a pobreza e a miséria social do Brasil. As CEBs acreditam na vitória da vida sobre a morte e a opressão, partindo da no Cristo ressuscitado. Sendo a utopia de uma nova sociedade sinal de Deus no aqui e agora de nossa história, uma motivação sempre necessária para continuar viva e forte “a caminhada das CEBs”.

Fonte : Memória e Caminhada. Brasília: UCB. 2 -  www.ucb.br/extensao/dpp/programa%20memoria.htm.      


2 comentários:

Ariel Desiderio disse...

Salve Maria.
não tenho nenhuma intenção de ofender ninguém, mas meu irmão, esses cánticos, além de horríveis artísticamente, são heréticos, não estou a dizer isto por ódio ou coisa similar, mas por amor e caridade com os irmão que podem correr o perigo de cairem em tal heresia berrante, diabólica.


In Corde Jesu, semper!

Vênus Dominic disse...

Poxa... Quanta humildade sua vir falar merda caro Ariel. Com um comentário nojento, quem precisa de um cristão bundão? Me perdoe.. Nem falo isso por maldade,imagina, mas fazer o que, tem gente que precisa se amadurecer na fé.. Se é que você me entende.

FICA NA PAZ IRMÃO! JESUS TE AMA...